Pais Heróis


 

Por Fábio Davidson

Presença da figura paterna no dia a dia dos filhos está mais valorizada pela sociedade e pelos próprios pais.

Expressões como “Você não sabe como mãe sofre”, “colo de mãe”, “ser mãe é padecer o paraíso” fazem parte da cultura brasileira há tempos. Nas redes sociais, piadinhas circulam, dizendo que o filho chama a mãe para tudo e o dia inteiro, e só chama o pai para perguntar: “Cadê a mãe?”.

De fato, com o avanço dos séculos e as mudanças na sociedade, principalmente após a industrialização, o pai afastou-se do lar para trabalhar fora, deixando as tarefas domésticas, inclusive o acompanhamento e a educação dos filhos, a cargo da matriarca. A valorização da figura materna em detrimento da paterna, então, foi apenas questão de tempo.

No entanto, o que se constata na sociedade atual, com o aumento contínuo da participação feminina no mercado de trabalho e nas atividades sociais e políticas, é que muitos homens têm retomado seu papel na educação familiar, dividindo tarefas e assumindo responsabilidades.

Pai exemplar

Em Portugal, o Dia dos Pais evoca o dia de São José, comemorado em 19 de março. Segundo a genealogia apresentada pelo evangelista Mateus, José era da tribo de Judá, descendente do rei Davi, de Israel e não teria gerado a Jesus, apenas citando que ele era “marido de Maria” (MT 1,16). José confiou na gravidez milagrosa de Maria, adotou Jesus e, assim, segundo a tradição hebraica, integrou-a a tribo de Judá, fazendo com que se tornasse descendente de Davi e Abraão.

Segundo o teólogo Valdeci Toledo, no artigo publicado pela Revista Ave Maria na edição de março deste ano, “José colocou na sua vida a serviço de Jess e de Maria. Pela iniciativa de Deus, ele se encontrou inserido de modo extremo e comprometido no mistério da Encarnação: como esposo de Maria e pai adotivo de Jesus (aquele que, por reputação, é reconhecido como pai de Jesus), assumiu o nascimento do Filho de Deus como acontecimento histórico; testemunhou a virgindade de Maria e o nascimento de Jesus; foi chefe da família de Nazaré, sustentou-a com seu trabalho, a defendeu e a protegeu”.

Na cultura judaica, o pai tinha um papel fundamental na educação dos filhos. Quando estes já sabiam falar, por volta de 3 anos, orações e cânticos eram entoados para memorização, além da observação dos símbolos e práticas religiosas da família, sobre os quais a criança era estimulada a tirar suas dúvidas. Essa tradição ainda hoje é mantida pelos judeus. “O pai tem um papel importante na educação dos filhos, na cultura judaica. Meu pai me passou a tradição judaica, a prática de alguns mandamentos, a importância do estudo da Torá e a identificação com Israel”, afirma Dani Lindenbaum, 39 anos, jornalista.

“Exemplo de paternidade, José assumiu o nascimento do Filho de Deus, sustentou sua família, a defendeu e a protegeu.”

Ou seja, além do ensino religioso, o pai tinha – e ainda tem – a tarefa de contar a história do povo hebreu e transmitia os conhecimentos da sua profissão. Paralelamente, havia o ensino através de provérbios, parábolas e sabatinas, como a que Jesus participou com os doutores da Lei, ao visitar o Templo de Jerusalém (Lc 2,46-47), para sua cerimônia de passagem (Bar-Mitzvá), ao completar 13 anos.

A comunidade judaica em São Paulo também mantém a tradição. “Bar-Mitzvá significa filho da aliança. Todo menino judeu, quando chega aos 13 anos – e a menina aos 12 – está apto a seguir os mandamentos da Torá, como jejum, parte da alimentação e orações. Alguns param no Bar-Mitzvá, outros seguem a vida religiosa”, conta Lindenbaum, que segue algumas das tradições. “Não como carne de porco, faço algumas orações, frequento esporadicamente a sinagoga”, completa.

Pelo relato do desempenho de Jesus no Templo, entendemos que havia sido bem instruído por José, seu pai, que além de ensinar sobre a Lei e a história do povo, também lhe transmitiu sua profissão, o que fica claro na passagem do Evangelho de Mateus (MT 13,53-56), quando o povo reconhece Jesus como “o filho do carpinteiro”, ofício que provavelmente Ele exerceu até o inicio do seu ministério, aos 30 anos de idade.

Dani destaca que o pai passa os ensinamentos para os filhos, mas alguns seguem a religião, outros não. “Eu acho importante algumas práticas do judaísmo, sem exageros”, relata. “Sem dúvida que é de suma importância a participação do pai na educação dos filhos, seja na religião, na cultura e em outros aspectos da vida”, completa, com a ressalva: “Pretendo transmitir alguns ensinamentos para meus filhos. Mas, vou deixá-los escolher o caminho a seguir, sem pressão”.

Pai Presente

Dar banho nos filhos arrumá-los para ir à escola e ainda trabalhar deixou de ser papel destinado à mãe, sendo desempenhado – e bem – por muitos pais, que também participam das reuniões escolares, levam ao pediatra e correm ao pronto-socorro quando o filho passa mal à noite. E para alguém que adotou uma criança com diversos problemas de saúde, essas intercorrências são constantes, como descobrimos no diário eletrônico www.querocontar.net, mantido na internet por Mário José Buzolin Persona, 57 anos, pai de Pedro, atualmente com 30 anos, que nasceu cego e com paralisia cerebral, o que também o impossibilitava de falar e andar.

Se a preferência na adoção é por meninas, brancas e recém-nascidas, Mário Persona é a exceção à regra e mostrou que adotar, acima de tudo, é uma atitude despida de preconceitos. Ele já era pai de Lia, com 6 anos, quando adotou Pedro, que tinha 4 anos. Ela cresceu e, de irmã, amiga e companheira nas idas aos médicos, na hidroterapia, fisioterapia e equoterapia, Lia tornou-se enfermeira e escreveu um livro para contar a história de seu irmão, intitulado Uma Luta pela Vida.
Atualmente, Lia vive com seu marido e filho nos Estados Unidos, enquanto Mário, formado em Arquitetura e Urbanismo, continua sua vida como escritor, palestrante, consultor e professor de Comunicação e Marketing, sempre na companhia de Pedro.

Tem hora para ser pai?

Além de uma participação maior do pai na vida familiar, os tempos modernos têm postergado a idade para o casamento e para que os casais tenham filhos. Estabilidade financeira, estudos e medo dos altos custos são fatores que levam homens e mulheres a deixarem o sonho da paternidade/maternidade para depois dos 30 anos. Nesse ambiente, quem tem filho ainda jovem é exceção. É o caso de Fábio Souza, que, além da surpresa da gravidez de sua esposa, Evelyn, quanto ele tinha 21 anos, levou outro susto ao saber que a família ia sobrar, com a vinda de gêmeas.

Fico com as minhas filhas todas as noites, enquanto a mãe delas estuda. É uma grande oportunidade de fortalecer o laço entre pai e filho.”

Fábio Souza

 

 

O crescimento da família causou receio, pois Fábio vivia de bicos e ainda fazia cursinho. “Naquela noite, subi para o quarto mais cedo só para que ninguém me visse chorando. Mas, no dia seguinte já estava na rua procurando por emprego”, relembra o jornalista. Depois, quando ficou sabendo que a surpresa vinha em dose dupla, secou as lágrimas. “Tive medo, mas já tinha chorado tudo na primeira noite. Depois, só dobrei o número de currículos enviados. Felizmente, consegui emprego logo”, relata.

Fábio não tinha plano para ter filhos até então, e imaginava que isso iria acontecer só depois dos 30 anos. Mesmo adiantado, o destino atendeu um sonho do jovem pai, que já pensava que dois filhos seria o ideal. “Ironicamente, sempre quis ter gêmeos”, conta. Ele acredita que a participação do pai na vida dos filhos tem mudado com o passar dos anos. “Há uma evolução aí. O meu pai tentou não cometer os mesmos erros que o meu avô e eu tento fazer aquilo que o meu pai poderia ter feito por mim. Até a minha adolescência, eu não sabia se tinha medo do meu pai ou se eu o respeitava. Eu, por exemplo, não levanto a mão para as minhas filhas. Prefiro uma boa conversa, olho no olho”.

Embora tenha vivido uma infância feliz, o pai das gêmeas Bárbara e Isadora procura dar uma abertura maior às filhas do que teve quando criança. “Também procuro não deixá-las sem resposta para qualquer pergunta que façam coisa que nem sempre conseguia com os meus pais.” De qualquer forma, mesmo com mais diálogo e liberdade, Fábio tem consciência que pode cometer erros. “Faço isso, mas sei que lá na frente elas vão apontar as minhas filhas, assim como fiz com os meus pais. O importante é que agora eu sei que o meu pai, assim como meu avô, fizeram o melhor que podiam para seus filhos.”

Para o pai participar mais da vida de seus filhos, deve dispor de mais tempo com eles, principalmente nas grandes cidades, onde somente o tempo para se deslocar de casa para o serviço rouba praticamente todas as horas livres do dia. Fábio sabe bem o que isso quer dizer: “Fico com as minhas filhas à noite, enquanto a mãe delas está na faculdade. Para mim é uma grande oportunidade de fortalecer o laço entre pai e filho, seja na ajuda para resolver um problema de matemática ou para jogar conversa fora durante o jantar”.

Guarda Paterna

Um estudo polêmico dirigido por Ronald P. Rohner e apresentado pela Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, chegou à conclusão que ser rejeitado pelo pai fere mais do que pela mãe, além de ser maior a tendência de que as crianças se tornem mais ansiosas e inseguras quando abandonada pela figura paterna.

Esse não é o caso do publicitário Adilson Correa Santos, 43 anos, que tem a guarda definitiva de Leonardo, 15 anos, e Pedro, 17 anos. Casos de guarda definitiva do pai eram raros até alguns anos atrás, mas vêm aumentando com o passar dos anos.

Adilson se orgulha ao contar que, na visita do último censo pelo IBGE, foi informado que “era o único caso de guarda definitiva de um pai da Zona Norte [de São Paulo]”, na pesquisa até então realizada pelo recenseador. De fato, os dados do censo IBGE de 2006 apontam que o percentual de pais com guarda definitiva é muito baixo em todo o Brasil.

O certo é que a Constituição Federal de 1988 inovou no Direito de Família, que adquiriu novos contornos com o novo Código Civil de 2002 e busca dois princípios: o da igualdade entre cônjuges e companheiros (Artigo 226, 5º, da Constituição) e o Princípio do melhor interesse para a criança e o adolescente (Artigo 227 da Constituição e artigo 1.583, 2º, do Código Civil).

No caso de Adilson, os filhos não ficaram com ele desde bebês, embora ele estivesse sempre presente no cotidiano das crianças. A reviravolta veio quando o mais velho, Pedro, então com 10 anos, pediu para morar com o pai. Com o consentimento da mãe, as crianças passaram a viver com o pai, que cumpriu todas as medidas legais, incluindo entrevistas e avaliação social e psicológica por especialistas do Fórum, e, após três anos, ganhou a guarda definitiva dos adolescentes.

Adilson precisou reestruturar toda sua vida para receber os filhos, desde o ambiente doméstico até o planejamento de seu tempo. “A escola é na esquina de casa e eles ainda fazem inglês fora”, conta. “Tenho uma empregada que ajuda muito. Sem ela, seria difícil tocar o projeto”, acrescenta, afirmando que não conhece outros pais que cuidam sozinhos dos filhos.

Em uma sociedade onde a guarda é predominante materna, muitas pessoas estranham a escolha de Adilson. “Tenho bom relacionamento com diretos da escola, professores. Eles até me admiram”, conta o orgulhoso pai, entre risos. Na vida social e profissional, o mesmo acontece. “No trabalho, tem gente que fica espantada e surpresa quando sabe que tenho filhos. Principalmente quando descobrem que cuido deles praticamente sozinho”.

Percentual de divórcios de casais com filhos menores de idade segundo o detentor da guarda dos filhos – Brasil e Grandes Regiões, 2006.
Homem Mulher Outros Total de Registros
Brasil 6,2 89,6 4,3 75.736
Norte 10,1 83,2 6,7 4.188
Nordeste 6 89,2 4,9 15.971
Sudeste 5,4 91,2 3,5 35.812
Sul 7,2 87,8 5 11.393
Centro-Oeste 6,6 89,1 4,3 8.372

 

Tempos Modernos

Os tempos mudam a sociedade e as relações pessoais também. A era digital cria uma falsa proximidade, ao mesmo tempo em que invade a privacidade de todos. Nesse contexto, pais desfrutam de muitos acessórios para monitorar seus filhos. Celulares, GPS, notebooks e até chips são usados para saber onde as crianças e adolescentes estão. Mas, se hoje é o pai participa mais da vida do filho, a forma de demonstrar interesse e carinho não muda.

Para a psicóloga Helena Tonioli, a figura do pai é fundamental. “A família sempre foi e sempre será o primeiro lugar do afeto. É o primeiro lugar do aprendizado da chegada ao mundo. Se esse lugar não for o do acolhimento, da aceitação integral, o individuo terá dificuldades em ter um acesso e desenvolvimento saudável no mundo”. A psicóloga afirma ainda que a figura do pai, especificamente na formação do filho, é primordial no que diz respeito à elaboração das normas e éticas da sociedade.

De acordo com Helena, nos casos de pais separados ou em que ambos trabalham em tempo integral, “faz-se necessário um ‘ajuste’, um plano neste modelo da formação, afinal de contas o contexto de vida hoje é outro, sendo importante e fundamental a mudança de um modelo de ação, para que não instaure uma crise. Cabe a criatividade, uma parceria desta família em questão, na compensação de uma qualidade de vida criativa em família, sendo que a presença do pai sempre foi e sempre será fundamental em qualquer situação ou questão em que se apresente qualquer dinâmica familiar”.

Atenção, preocupação, ensino através do exemplo e tempo para ouvir os filhos são alguns dos fatores que tornam o pai uma figura presente e confiável, ao mesmo tempo em que crianças se tornarão adolescentes, jovens e adultos equilibrados, resolvidos e capazes de formar uma nova família com alicerces fortes.

Retirada da Revista Ave Maria, ano 114, agosto 2012, página 42 a 47.

 

fonte: http://catolicos.vialumina.com.br/index.php/pais-herois/

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s